sexta-feira, 5 de agosto de 2011

1. História do Calor - Sobre o Domínio do Fogo.

Uma eficaz pasteurização do leite é efetuada elevando sua temperatura à variação específica de 130˚C a 150˚C durante três ou cinco segundos. As famosas “chapinhas” para alisar cabelos trabalham, em média, com temperaturas entre 150 °C e 180°C. Ao passamos por uma porta eletrônica é necessário fazer com que o sensor instalado seja sensível à temperatura do corpo humano próximas a 36°C. Baseado-se nas previsões do tempo, que estimam as temperaturas nos diversos locais, programamos nossos passeios. Marcamos três minutos no relógio e rapidamente podemos saborear uma deliciosa pipoca. Naturalmente não precisamos saber que o coitadinho do milho ficou sujeito a temperaturas superiores a 150°C para estourar, mas foi preciso configurar essa temperatura no aparelho de micro-ondas.




O controle de temperatura está inserido nas diversas atividades cotidianas, na construção de motores, turbinas, bombas e compressores, usinas térmicas, sistemas de propulsão para aviões, foguetes, sistemas de combustão, sistemas de aquecimento, refrigeração, bombas de calor. Dos sistemas geotérmicos até os biomédicos é preciso um controle cuidadoso da temperatura para que as mais variadas necessidades sejam atendidas. Mas nem sempre foi assim, a medição da temperatura, a ideia de energia térmica e transição do calor tiveram sua história.


Podemos admitir que o homem tenha conhecimentos de como produzir e manter o fogo há pelo menos 200 mil anos atrás. Idade mínima acessível graças à técnica de datação pelo método da termoluminescência* . Se hoje dizemos que onde há fumaça há fogo, para identificar uma fogueira na antiguidade dizemos assim: Onde minerais foram aquecidos a temperaturas  próximas a 500°C, lá existiu uma fogueira!
* O método de datação por termoluminescência consiste na análise de uma amostra (material semicondutor ou isolante) e seus níveis de energia sob exposição da radiação do ambiente em que estava enterrado ou do próprio material de que ela é feita.  No laboratório é aquecida a amostra até que a termoluminescência seja liberada, indicando o tempo transcorrido desde a última vez em que a amostra sofreu aquecimento.




No ímpeto das deduções, podemos imaginar que o uso do fogo há centenas de milhares de anos proveio da necessidade de se proteger de animais hostis, de lidar com as variações climáticas, ou mesmo de se adequar a vida e o aumento populacional. O calor - que ainda nem ensaiava esse nome – permitiu que o homem se aventurasse por regiões mais frias e cozinhasse os alimentos. Árvores incendiadas naturalmente levaram-no a apreciar não só o poder de destruição do fogo, mas também seu potencial como fonte de iluminação.

Filme - Guerra Do Fogo, 1981 - Jean-Jacques Annaud

A figura emblemática de Prometeu atribuída aos primeiros humanóides faz justiça à alusão do homem desafiando o poder da natureza para sua sobrevivência. Prometeu, desejando favorecer a Humanidade, rouba o fogo do Olimpo, pregando uma peça nos poderosos deuses. Outros registros relatam que o perspicaz herói furta o fogo como uma forma de obter para a raça humana um elemento que lhe garantiria a necessária supremacia sobre os demais seres vivos. Fato é que o coitado do Prometeu foi condenado à prisão eterna, durante os quais ele seria diariamente bicado por uma águia que lhe destruiria o fígado e meu texto tem o objetivo mesmo é de falar sobre física.
Carvão vegetal, ossos queimados, fornos de pedras encontrados em vários sítios arqueológicos sugerem que o fogo favoreceu a reunião social por volta de 40.000 A.C. Em fornos de barro, a introdução de tubos permitia o controle para entrada de para o controle e aumento do fogo. As primeiras lamparinas, feitas com pedras e dotadas e buracos naturais, queimavam gordura animal, fibras vegetais serviam de pavio e ao que tudo indica processos complexos de produção do fogo por meio do atrito já eram bem utilizadas.
O uso do barro nos fornos levou à descoberta de como transformar esse material com o fogo e utiliza-lo para criar figuras de barro cozido. Mais tarde a técnica foi aprimorada com a produção da cerâmica. Para conferir mais resistência ao objeto, misturava-se o barro preparado com areia. Com a mesma técnica construções e estruturas mais duráveis foram elaboradas e imponentes.
 
As empolgantes construções históricas não param por aqui, ainda pretendo falar sobre o aprimoramento dos fornos ao longo do tempo e o uso do fogo na metalurgia. Por hora fica um trecho de outro artigo sobre o calor de Rubem Alves:
“Num pau de fósforo está resumida a luta dos homens, através dos milênios, para dominar o fogo. Objeto técnico incrível. É esfregar a cabeça dele numa superfície áspera e ele acende. Os paus já estão trançados no fogão. Não havia álcool para ajudar. Não havia jornais para queimar. Capim seco, sim. Tudo arranjado do jeito certo, encosta-se o fósforo aceso no capim. E o milagre acontece: o fogo.”

SOBRE A SEQUÊNCIAS DE TEXTOS: A HISTÓRIA DO CALOR
O texto descrito aqui faz parte do meu trabalho de pesquisa sobre a construção da ideia do calor na história. Tenho o prazer de compartilhar as ideias de um amigo que muito contribuiu para os frutos  deste trabalho e de outros textos que virão: A. Sousa e Brito .


 
Referências


Livro: Armando Gibert, Origens Históricas da Física Moderna. Fundação Calouste
Gulbenkian, Lisboa, 1982

Revista:  160 séculos da ciência - Volume 1 - São Paulo: Duetto Editorial - 2010.

Notas das aulas de Gravitação (1ª edição de 1995, parcialmente revista em julho de 2007)
João Zanetic/IFUSP

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